Como Éder se viu envolvido num esquema de offshores

O jornalista francês Yann Fossurier revela alguns pormenores da saída de Éder da Académica e como o avançado se viu envolvido num esquema com duas offshores e o envolvimento do seu agente, que tem ligações a Antero Henrique, e Jorge Mendes na sua carreira.

Fossurier baseia-se em documentos do Football Leaks que ajudam a perceber melhor a saída atribulada de Éder da Académica: o seu agente, que secretamente detinha 50% do passe, fez cair o acordo com o West Ham e levou-o a “desaparecer” durante alguns dias apenas para valorizar o seu investimento.

28 de Janeiro de 2012. Faltam três dias para o fecho da janela de transferências de Inverno mas, acima de tudo, cinco meses para o contrato de Éder com a Académica terminar. Nesta altura o avançado já é um jogador livre e pode assinar por qualquer clube sem que o clube de Coimbra seja compensado financeiramente.

Este é um cenário que os dirigentes da Académica querem, a todo o custo, evitar, uma vez que Éder é um dos jogadores mais valiosos do plantel e, por isso, procuram um clube para o avançado nascido na Guiné-Bissau em 1987 e entretanto nacionalizado português. Contratam por isso Nélson Almeida e mandatam-no para encontrar um clube estrangeiro que queira comprar o passe de Éder até 31 de Janeiro.

Existem duas propostas, do Everton e do Palermo, até à entrada em cena de um terceiro clube, disposto a gastar bastante dinheiro para garantir o concurso de Éder: o West Ham. O clube inglês chega mesmo a reunir-se com os responsáveis da Académica no Hotel Sheraton, no Porto, nessa mesma noite, de forma a mostrar que está mesmo empenhado em levar Éder para Terras de Sua Majestade. Na comitiva inglesa inclui-se Sam Allardyce, treinador da equipa principal. Já há acordo entre clubes, falta apenas o OK do jogador e tudo parece bem encaminhado.

Ao receber uma chamada, Éder sai da sala e não regressa mais. Desaparece por completo e não torna a aparecer senão ao fim de três dias. De acordo com o relato de Yann Fossurier, o avançado tem tanta pressa em abandonar o hotel que deixa os pertences no local. José Eduardo Simões e Luís Godinho, respectivamente presidente e vice-presidente da Académica, participam o seu desaparecimento à Polícia Judiciária.

Para onde foi Éder?

Nas horas que se seguem, Éder dá conta às autoridades do seu paradeiro: está em Lisboa, a mais de 300 km de distância, com a família. “Não houve qualquer fuga ou desaparecimento. Encontro-me em Lisboa com a minha família”, viria a explicar mais tarde à Rádio Renascença.

Éder regressa a Coimbra e apresenta-se na academia quatro dias depois do seu “desaparecimento”. É dia 1 de Fevereiro, a janela de transferências já encerrou e o acordo entre Académica e West Ham caiu. O clube abre um processo disciplinar ao jogador, que fica sem jogar até ao final da temporada.

As ligações de Antero Henrique ao agente de Éder

Ninguém sabe, ao certo, o motivo que levou Éder a desaparecer na noite de 28 de Janeiro. Os dirigentes da Académica não têm qualquer dúvida de que por trás da decisão do jogador estão os seus agentes, Mohamed Afzal e Pedro Romão. A peça da Mediapart/Mediacité revela que Romão foi apanhado pelas câmaras de segurança do Sheraton, no Porto, numa tentativa de evitar que o jogador assinasse pelo West Ham.

No entanto, quem desempenha um papel fundamental nesta história é Mohamed Afazal, um agente tão discreto quanto influente. Nascido em Moçambique, está ligado a um dos homens mais poderosos do FC Porto na era de Pinto da Costa, Antero Henrique, de quem foi cunhado. Director desportivo do FC Porto desde 1990 e director geral a partir de 2005, além de administrador da SAD, Antero Henrique foi durante muito tempo o número 2 do clube, logo atrás de Pinto da Costa.

Antero Henrique deixou o FC Porto a 1 de Setembro de 2016, numa altura em que o clube reatou relações com Jorge Mendes. Mas esta não foi a única razão para o seu afastamento. Nas últimas semanas, a imprensa francesa tem avançado a possibilidade de o antigo dirigente azul e branco rumar ao Paris Saint-Germain para assumir o cargo de director desportivo. No entanto, é certo que a sua relação com Pinto da Costa, nos meses anteriores à sua saída, se tinha deteriorado e era bastante tensa.

Quando Éder decide fugir do Sheraton, no Porto, Antero Henrique estava a par de tudo. Os dirigentes da Académica acreditam que o avançado tinha assinado um pré-acordo com o FC Porto, em Dezembro de 2011, válido para quatro temporadas a partir de 2012/13, depois de Éder se ter desvinculado dos estudantes, a custo zero. Para além disso, vários rumores dão conta de que teria à espera um prémio de assinatura de 300 mil euros e de um SUV topo de gama. Por isso, Éder não podia aceitar a oferta do West Ham.

As partes negam e o próprio Éder dá conta, muito vagamente, da sua versão do episódio na autobiografia publicada pouco depois da conquista do Euro’2016. O jogador afirma que os 300 mil euros seriam “pagos por uma empresa alemã” e acrescenta que o valor foi imediatamente devolvido porque o acordo não chegou a ser cumprido.

Eis que entra em cena Jorge Mendes

Depois de sair da Académica, Éder não vai para o FC Porto. Acaba por rumar ao Sp. Braga, um clube intimamente ligado a Jorge Mendes, uma história contada pelo jornalista italiano Pippo Russo no livro M L’orgia del potere. O próprio jornalista resume o negócio.

O valor, mostram os documentos divulgados pela Mediapart/Mediacité, é depositado na conta da Idoloasis, empresa sediada no Porto, cujo director é Mohamed Afzal. Os documentos mostram ainda que os restantes 50% são detidos pela Young Soccer Players Limited, empresa com sede fiscal em Malta, que pertence à Harmony Limited, companhia sediada no Panamá. Ambas as empresas pertencem ao mesmo grupo, Palton Management Limited, também com sede no Panamá.

Feitas as contas, o Sp. Braga acaba por gastar 750 mil euros por metade dos direitos económicos de Éder quando podia ter ficado com a sua totalidade a custo zero. Como resultado do negócio, o passe do jogador fica repartido com duas empresas offshores.

Voltando a Mohamed Afzal, o tal agente discreto e influente que representa Éder, para além de vender metade do passe do jogador ao Sp. Braga, via Idoloasis, por 750 mil euros, garante ainda 10% de uma futura venda que venha a ser feita por um valor acima de 1,5 milhões de euros. É nesta altura que aparece Jorge Mendes. O Sp. Braga acaba por comprar a outra metade do passe de Éder à Young Soccer Players Limited, por um valor desconhecido, e, de acordo com os documentos da Mediapart/Mediacité, cede, a 9 de Julho de 2013, 30% dos direitos económicos à Gestifute, a troco de 405 mil euros.

Pippo Russo nota que, ao comprar 50% do passe de Éder a Mohamed Afzl por 750 mil euros, um ano antes, o jogador ficou valorizado em 1,5 milhões de euros. Assim, 30% desse valor equivale a 450 mil e não 405 mil euros. O jornalista sublinha, com alguma ironia, o desconto de 45 mil euros do “amigo” Jorge Mendes, valor esse que terá sido canalizado para o jogador.

ocumentos adiantam ainda que, caso Éder seja vendido por um valor superior a 21 milhões, a Gestifute fica com 50% do negócio. Um valor bastante exagerado, como comprova o valor por que foi transferido para o Swansea, em 2015: 6,7 milhões de euros. A cláusula dos 21 milhões mantém-se, no entanto, no novo contrato.

Com o negócio, o Sp. Braga recebe 4,69 milhões de euros, correspondentes aos 70% do passe que detém, e a Gestifute 1,7 milhões. Yann Fossurier acrescenta que não é certo que Mohamed Afzal tenha recebido os 10% acordados com os bracarenses, mas assegura que, quando António Salvador recebeu a proposta do Swansea, a mesma foi dada a conhecer à Idoloasis que, por sua vez, a fez chegar a Antero Henrique.

Éder acabou por transferir-se para o Swansea e acabou por ser emprestado ao Lille, em Janeiro de 2016, onde ainda joga. A 11 de Julho desse ano, Éder, nascido na Guiné-Bissau em 1987 e naturalizado português, entrou para a história do futebol nacional ao marcar o golo da vitória na final do Euro’2016, em Paris, frente à França, que deu a Portugal o primeiro título colectivo.

Crédito da imgem de destaque: LOSC



Um comentário a “Como Éder se viu envolvido num esquema de offshores”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *