Foi de Braga a Pedrógão Grande para entregar mantimentos

António Pinto não se conformou com o sentimento de impotência com que via o incêndio de Pedrógão Grande a ceifar vidas e a consumir zona de floresta, deixando um rasto de destruição em seu redor. Assim, lançou um apelo aos amigos e partiu de Braga rumo a Pedrógão para entregar os mantimentos que conseguiu recolher.

Com paragens no Porto e em Aveiro, António Pinto não parou enquanto não chegou ao seu destino. Inicialmente iria deixar os mantimentos nos Bombeiros Voluntários de Condeixa-a-Nova, mas optou por ir mesmo até ao epicentro da tragédia que tentava, humildemente, aliviar e descarregar na Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande a ajuda que conseguiu angariar junto dos amigos.

Grande parte da ajuda que o António conseguiu deveu-se ao facto de jogar um jogo online de realidade aumentada chamado Ingress. Os amigos aderiram logo ao repto lançado pelo António – conhecido no jogo como Strangelesi – e encheram a carrinha de água, leite, mantimentos e roupa para serem entregues na Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande.

De acordo com testemunhos de quem ajudou, em Oliveira do Bairro, o leite e a água do Intermarché esgotaram. No Pingo Doce, o mesmo. Uma funcionária chegou mesmo a ir ao armazém verificar se ainda havia mais, mas ia tudo para Pedrógão Grande.

Os amigos, que não deixaram de ajudar, partilharam por sua vez no Facebook a iniciativa, dando conta do orgulho que tinham do amigo.

Ao SPOT+, António contou o que o levou a embarcar nesta aventura humanitária: “No sábado adormeci a pensar nas 19 pessoas que tinham perdido a vida e no domingo acordei a saber que afinal eram 34, depois 47 e afinal 61!

Lembrei-me de fazer um apelo no Facebook e a alguns amigos para juntar meia dúzia de litros de leite e outros bens que estavam a ser pedidos pelos bombeiros e levá-los lá perto“, prosseguiu. “Levei um banho de mensagens e chamadas! Uma delas de um primo a oferecer a carrinha da empresa. No início ainda lhe disse que não seria necessário, mas depois de mais duas ou três mensagens percebi que tinha de aceitar, o meu carro não era assim tão grande“.

A resposta que obteve foi muito para além daquilo que estava à espera. Vários amigos apareceram no parque de estacionamento do supermercado onde estava a fazer as compras com bens alimentares e outros tantos pediram para comprar mais bens por conta deles porque não conseguiriam ir ter com ele.

Do Porto e Aveiro chegaram pedidos para que recolhesse alguns bens também. E assim foi. Saídos de Braga, parámos junto ao Hospital de São João, no Porto, para carregar a carrinha, e depois em Aveiro para terminar a carga“.

O ponto de encontro no Porto foi o Hospital de São João

Em Aveiro, António recebeu os mantimentos junto à saída para a A1

Recolhidos os mantimentos, hora de se fazer à estrada, uma vez mais, desta feita para apenas parar no destino: a Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande. Primeiro pela A1, mais tarde a A13 e finalmente o IC8.

António recordou o trajeto até Pedrógão Grande: “As nuvens de fumo eram visíveis quando faltavam ainda 100 quilómetros para lá chegar. Ao entrar no IC8, ficámos sem rede nos telemóveis, ficámos incontactáveis. Deixaram de cair mensagens e ofertas e passou a reinar um silêncio dentro e fora o carro. Por vezes lá se ouvia uma sirene e apareciam umas luzes do meio do fumo ou uns pirilampos azuis“.

O cenário, esse, era arrepiante e desolador: “Casas só com as paredes em pé, quilómetros de cabo pelo chão, animais a vaguear… Vimos um Canadair pelo meio do fumo, um ou outro helicóptero, mas a tonalidade era a mesma. Cinza, preto, castanho e céu laranja. O sol, esse, estava um vermelho rosado“.

Chegada ao centro da tragédia

Chegado a Pedrógão Grande, o que saltou logo à vista foi o aglomerado de gente, “um batalhão de jornalistas, misturado com bombeiros, polícias, GNR, exército e outras forças de segurança“. Mas não era ali o destino de António, que fez todo este caminho na companhia da mulher. Ali era “apenas” o centro de operações que estava a coordenar a situação em Pedrógão Grande.

Não, o destino era a Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande. António não fazia ideia onde ficava, mas contou com uma ajuda preciosa: a da comunidade de Ingress, o tal jogo online que jogava.

O destino era a Santa Casa da Misericórdia de Pedrogão Grande. Encontrámos o local graças ao GPS e à ajuda dos amigos do Ingress (uma outra grande história), e quando lá chegámos perguntámos se era ali que podíamos deixar a ajuda. Resposta afirmativa: ‘Dê a volta, entre naquele portão e siga até ao fundo, que eu já lá vou ter’, foi o que nos disseram“.

Lá dentro já havia um enorme camião a descarregar mantimentos, mas a ajuda não se mede pelo tamanho. À chegada do António, várias pessoas foram prontamente ajudar a descarregar a carrinha. “Obrigado e boa sorte“, foram as últimas palavras que trocaram antes de deixar a Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande.

Percalços no regresso a casa

Cumprido o objetivo, era hora de se fazer novamente à estrada e percorrer os mais de 200 quilómetros de volta ao lar. “O regresso só podia correr bem, já tínhamos feito o percurso inverso sem problema“. Mas não foi bem assim.

A dois quilómetros da saída para a A13, fomos mandados parar e ficámos a aguardar ordens da GNR. Houve uma abertura e o trânsito foi autorizado a passar“, relatou sobre o regresso a Priscos. “Infelizmente estamos em Portugal e havia muitas pessoas fora do carro a tirar fotografias e a ver a desgraça que por ali havia. Ao chegar a nossa vez, a GNR voltou a cortar o trânsito e cerca de trinta minutos depois obrigou-nos a dar a volta, porque as coisas haviam-se complicado lá na frente“.

Assim fizeram, incertos de que caminhos iriam seguir. Voltaram para trás, passaram por onde fogo havia causado destruição à sua passagem: “Passámos por aldeias desertas, camiões a instalar geradores noutras que ainda tinham pessoas…“. Até que chegaram a uma das frentes do incêndio, onde os bombeiros combatiam as chamas.

Fomos obrigados a sair do local rapidamente e lá conseguimos encontrar caminho para a antiga estrada que liga a Penela, acabando finalmente por entrar na A13 mais à frente“.

Enquanto isso, os amigos aguardavam, impacientes, por novidades de António, sem saber se tinha corrido tudo bem, se havia chegado ao seu destino. A rede de telemóveis continuava em baixo, não havia maneira de comunicar com ele a não ser por breves momentos, quando uma mensagem ou outra conseguiam ser entregues. “Vivo, em Penela“, foi o que me disse assim que teve oportunidade. Com o regresso das comunicações, voltaram as chamadas e mensagens e aperceberam-se que havia jornalistas e ministros rodeados pelas chamas.

Finalmente no conforto do lar

Chegado a Priscos, tempo para uma reflexão: “É um cenário desolador, triste, pesado. Não consigo sequer imaginar o sofrimento daquelas gentes“.

Agora eu e a minha mulher estamos em casa. Sentados, descansados, com água e comida, roupa e um abrigo. Mas, infelizmente, por aqueles lados, nem todos têm isso. Muitos foram os que ficaram só com a roupa que tinham no corpo“, lamenta, enquanto deixa um agradecimento a todos quantos tornaram isto possível: “Por isso, muito obrigado a todos os que me ajudaram a levar até eles um bocadinho de conforto“.

António acha que pode ajudar ainda mais. Ficou com o contacto da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande e vai fazer-se novamente à estrada esta terça-feira para levar tantos mantimentos, roupa e tudo o mais que seja preciso quantos possa.

Ao longo da viagem fui recebendo mais ofertas. Volto lá na terça-feira com bens ou transfiro o valor oferecido para a conta da Caixa Geral de Depósitos que foi entretanto aberta, caso os alimentos continuem a sobrar. Precisam também de roupa de vestir, roupa de cama, sacos-cama, almofadas, etc. Hoje precisam eles, amanhã podemos precisar nós. O povo português, junto, é mais forte que o mundo!

António despede-se da nossa conversa e de todos os que o ajudaram com um obrigado, mas somos nós que temos de agradecer-lhe o desprendimento e a voluntariedade com que se propôs, a um domingo de manhã, deixar o conforto do lar, recolher alimentos e roupa e fazer-se à estrada para ir entregá-los onde são mais precisos.

Podia ter ido entregá-los aos bombeiros de Braga, era certamente mais cómodo e a distância era menor. Mas assim não teria conseguido recolher os mantimentos do Porto e de Aveiro, nem motivado mais pessoas a fazer o seu donativo, um gesto que, por mais pequeno que seja, vai fazer sempre a diferença, porque vai inspirar outros a fazer o mesmo.

Além disso, António queria ter a certeza de que os mantimentos chegariam ao seu destino naquele mesmo dia.

Tudo isto tornou-se possível porque António faz parte de uma comunidade de um jogo online chamado Ingress. Eu, jornalista que assino esta peça, faço parte dessa comunidade. O Ingress é um jogo online de realidade aumentada em que há duas fações a lutar por um objetivo.

Não querendo entrar em detalhe na mecânica da coisa, o que importa aqui é sublinhar que o jogo vive muito das suas comunidades. Eu não conheceria o António se não fizéssemos parte da mesma comunidade: a Resistência Portugal. Os dedos de uma mão sobram para contar as vezes em que estivemos juntos, com o resto dos jogadores da nossa comunidade, em iniciativas em Portugal ou no estrangeiro. Mas o gesto do António encheu-me o coração e ajudou certamente a encher o coração dos sobreviventes desta enorme tragédia que se abateu sobre Pedrógão Grande e deu-lhes uma certeza: Portugal está com eles.

Por tudo isso, o meu muito obrigado, Strange.



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