Impossível ficar parado com este Mexefest

A Avenida da Liberdade voltou a receber o Vodafone Mexefest, com um cartaz revelador de uma aposta cada vez maior na música portuguesa e tão ecléctico na oferta de estilos musicais quanto nas salas e espaços prontos a receber os artistas convidados.

O pontapé de saída foi dado no Terraço do Capitólio, emblemática sala de espectáculos do Parque Mayer que terminou os trabalhos de remodelação iniciados em 2009 mesmo a tempo deste Mexefest. É esta, aliás, a fórmula que a organização tem querido aplicar ao festival: devolver a vida aos espaços esquecidos da capital.

Celeste/Mariposa ficou encarregue de abrir as hostilidades, mas a mescla de música africana misturada com a lusofonia dos PALOP apresentada pareceu não conseguir contagiar o pouco público presente, talvez hesitante em querer dar um passo de dança neste final de tarde.

Nos Bastidores do Capitólio, é Valas quem dá início a uma noite que transforma aquele espaço na capital do hip-hop por uma noite e a mostrar que também se faz bom hip-hop fora do Porto e Lisboa. Segue-se a dupla inédita Nerve & Mike El Nite, dois nomes que já dispensam apresentações. Com estilos e maneiras de estar em palco diferentes, Nerve com um set mais minimalista, mas nem por isso inferior em qualidade, e com participações especiais de Blasph e Capicua; Mike El Nite mais agressivo e a agitar ainda mais a multidão, terminaram a cantar juntos “A Vida Não Presta”, do Nerve.

Talib Kweli @ Cine-Teatro do Capitólio
(Vodafone Mexefest 2016)

Finalmente quem todos esperavam: Talib Kweli a trazer a Portugal, pela segunda vez, o verdadeiro hip-hop. Foi com este lema em mente que o rapper de Brooklin partiu para uma actuação cheio de batidas fortes e entrecortadas que ninguém do hip-hop português quis perder: Xeg, Fuse, Valete ou Carlão, entre outros, todos estiveram lá para testemunhar a homenagem feita a Wu-Tang Clan, Sean Price e J Dilla.

O rapper norte-americano trouxe a palco Niko Is. Brasileiro, mas radicado na Florida, o rapper trouxe ainda mais energia a um palco que já transbordava só com Talib Kweli, uma atuação que serviu de interlúdio para o que vinha a seguir.

Depois da homenagem àquela que é a sua santíssima trindade, lembrou outras figuras icónicas no mundo da música (ou na música do mundo): “J Dilla está para o hip-hop como o Bob Marley para o Reggae, James Brown para o Funk ou Jimi Hendrix para o Rock”. E ainda Michael Jackson, Sister Nancy ou Nina Simone, o culminar perfeito para uma actuação em que o Capitólio se revelou pequeno para receber tanta gente a querer testemunhar o momento.

Do experimentalismo psicadélico ao rock alternativo e alguns toques de punk

Acid Acid trouxe a sua sonoridade psicadélica de rock progressivo ao Cinema São Jorge. O experimentalismo que Tiago Castro faz com os sintetizadores e a guitarra é bem patente pela quantidade de pedais que se vêem em cima de palco, divididos com Violeta Azevedo, a flauta transversal que, descalça, o acompanha e que luta por fazer-se ouvir por entre a distorção criada e que nos leva a viajar pelas ondas sonoras.

Na estação do Rossio, são os Sunflower Beam que enchem o espaço. Das bandas que por ali passaram, o trio de Nova Iorque foi aquela que mais gente atraiu.

Com o Castelo de São Jorge como pano de fundo, Nick Kivlen (guitarrista), Jacob Faber (baterista) e Julia Cumming (baixista e vocalista) apresentaram a sua sonoridade rock alternativa, sem abandonar a atitude desafiante com alguns laivos de punk, e foram os protagonistas de uma actuação onde mostraram que, apesar da tenra idade, conseguem apresentar um espectáculo maduro, cheio de música explosiva, e acabaram por revelar-se uma das revelações da noite.

Animação avenida acima, avenida abaixo e Jorge Palma no Rossio

Ao mesmo tempo que estes concertos aconteciam ao longo da Avenida da Liberdade, os Kumpania Algazarra iam animando, e aquecendo, a noite fria, com a sua actuação itinerante, ao estilo de uma arruada, para deleite dos vários turistas que, aqui e ali, iam sendo apanhados de surpresa pelo grupo.

Houve ainda lugar para a actuação surpresa de Jorge Palma, no Largo de São Domingos, no Rossio. O anúncio tinha sido feito durante a manhã pela organização do Vodafone Mexefest, e, sendo gratuito, estava aberto a quem por ali passasse.

Medeiros/Lucas @ Sala do Alentejo
(Vodafone Mexefest 2016)

Ali não muito longe, a Casa do Alentejo recebeu Medeiros/Lucas. A voz grave de Carlos Medeiros combina na perfeição com o rock progressivo das suas guitarras e embala o ouvinte. Debaixo de um tecto bastante ornamentado e numa sala que nem sempre está aberta ao público, o momento alto da noite acontece quando se junta Selma Uamusse.

Como lembra Pedro Lucas, grande parte da sua banda já se encontra presente, o que ajuda a que a simbiose em palco seja ainda maior e torna-se impossível não nos arrepiarmos com a interpretação conjunta do tema ‘Corpo Vazio’.

Da música contagiante de NAO à poderosa electrónica de Jagwar Ma

No Coliseu dos Recreios, NAO encheu a sala. A cantora britânica que é um dos fenómenos do momento, estreou-se em solo nacional e apresentou-nos a sua voz de jazz sobre umas batidas R’n’B, algumas vezes a roçar o soul ou o funk, numa mistura que, pelo furor vivido entre o público, funciona.

Bem disposta, sempre a sorrir e a dançar, descalça, sobre o palco, mostrou que não tem qualquer medo de tentar, ao vivo, chegar às notas mais agudas que nos deu a conhecer no mais recente trabalho, ‘For All We Know’.

Quando lhe pedem uma música de Justin Bieber, cujo concerto terminara pouco antes do outro lado da cidade, NAO decide presentear a plateia com a sua versão de Señorita, um original de Justin… Timberlake, com participação de Pharrel Williams.

Acompanhada de baterista, guitarrista, baixista e teclista, mostrou que sabe como fazer a festa e abriu a porta a regressar ao nosso país no futuro mais próximo.

Os últimos a entrar em palco foram os Jagwar Ma. Com algum atraso, para dar lugar à recitação de um poema de gosto duvidoso de Carlão, foram recebidos por uma sala cheia. Não porque eram a única atuação àquela hora, mas por mérito próprio, apresentando a poderosa electrónica por que são conhecidos.

https://twitter.com/joaogoliveira/status/802362735476490240

Em digressão pela Europa há já um ano, que terminou precisamente nesta actuação, a dupla constituída por Gabriel Winterfield e Jona Ma, que se transforma em trio nos espectáculos ao vivo com Jack Freeman, demonstrou por que é uma das bandas sensação desde que editaram o disco de estreia há já três anos.

Regressam por momentos as sonoridades psicadélicas apenas para abrir caminho a uma performance de música electrónica cheia de energia, transformando o palco do Coliseu numa autêntica pista de dança. O recurso aos sintetizadores analógicos, batidas pesadas e os refrões de Gabriel prendem o público que não se cansa de dançar e fica a pedir por mais quando a banda abandona o palco.

Jagwar Ma regressaram para um encore, mais acústico, apenas com guitarras e sem sintetizadores, numa derradeira tentativa de deitar abaixo o Coliseu, mas não podiam. É que este sábado há mais Mexefest, ali mesmo, onde Branko terá as honras de fechar o festival.



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