Rússia diz “nyet” a House of Cards

A Rússia vetou um pedido dos produtores de House of Cards para gravar dois episódios da série no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O motivo invocado pela delegação russa prende-se com a necessidade de manter a câmara livre para crises de emergência, de acordo com uma série de emails confidenciais trocados entre um diplomata russo e os seus congéneres do Conselho de Segurança obtidos pelo departamento de Política Externa.

O veto russo surge cerca de uma semana depois de o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon ter recomendado que o Conselho de Segurança autorize a série a gravar na câmara durante as horas livres para aumentar a consciência do público para a organização.

Esta decisão, no entanto, não impede que os produtores de House of Cards gravem os episódios em questão noutros departamentos da ONU.

Cai assim por terra a possibilidade de Frank Underwood — o mais implacável e cínico líder político do mundo, representado na série por Kevin Spacey — ou um seu representante conseguir assento no Conselho de Segurança da ONU, um local emblemático que espoletou intervenções militares desde o Golfo Pérsico às Coreias.

A delegação britânica — que assume a presidência do órgão em Agosto, mês em que os produtores de House of Cards queriam gravar os episódios — pediu aos restantes membros que colocassem as suas objecções até à tarde de terça-feira ou consideraria o seu pedido aprovado.

O diplomata russo, Mikael Agasandyan, respondeu a cerca de meia-hora do prazo estipulado.

Em teoria, a decisão da Rússia não é um veto formal, que apenas pode ser apresentado em caso de votação. No entanto, uma vez que as decisões do conselho são feitas através do consenso, uma decisão no sentido contrário tem o mesmo efeito.

Também a China expressou algumas reservas quanto à gravação de House of Cards no Conselho de Segurança, mas deixou a porta aberta ao sim chinês caso os membros do conselho aprovassem o guião para os episódios em causa.

A série House of Cards é bastante popular na China, apesar de ter mostrado um lado pouco lisonjeiro do país, com Frank Underwood a levar a cabo vários negócios obscuros com um empresário chinês corrupto. Ainda assim, a crítica mais acérrima da série é principalmente à classe política americana, que considera cheia de intrigas, calúnias e corrupta.

O Conselho de Segurança aprovou uma sessão fotográfica de Annie Leibovitz com a embaixatriz Susan Rice para a Vogue e também da comédia diplomática francesa Quais d’Orsay, do realizador Bertrand Tavernier. No entanto, este pedido de gravação e consequente nega não são virgens na história da ONU: Há cerca de 50 anos, as Nações Unidas rejeitaram um pedido de Alfred Hitchcock para gravar um assassinato para a sua obra-prima North by Northwest, uma decisão de que muitos dirigentes das ONU se arrependem.

A ONU assegurou ao Conselho que as filmagens teriam lugar durante a noite e nos fins-de-semana e que nunca interromperiam sessões de emergência. Para além disso, estavam planeadas para o mês de Agosto, altura em que a maioria dos embaixadores está de férias.

Este pedido surge numa altura em que as Nações Unidas têm procurado vários realizadores de Hollywood para promover a imagem da organização. Numa tentativa de convencer o Conselho de Segurança, dirigentes da ONU argumentaram que a Netflix — serviço de televisão por stream — tem alcance global, com mais de 44 milhões de subscritores em 41 países.

Números insuficientes para fazer frente a um nyet russo.



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